Introdução
A Internet, apesar de ser descentralizada de certa forma, depende de uma organização para garantir que seus identificadores (ASN, IP) sejam únicos e funcionem corretamente no mundo inteiro. Entre esses identificadores estão os endereços IP e os números de sistemas autônomos (ASNs), fundamentais para o roteamento global.
Para compreender como esses recursos chegam até um provedor ou organização, é necessário entender a hierarquia envolvida nesse processo. Apesar dessa hierarquia ter sido descrita em detalhes na parte A Hierarquia de Alocação de Endereços IP na Internet, vou descrever novamente, mas será um resumo do que já vimos.
No nível mais alto está a IANA (Internet Assigned Numbers Authority). A função dela não é entregar recursos diretamente a empresas ou usuários finais, e sim atuar como um ponto central de coordenação global, responsável por manter e distribuir os recursos disponíveis. Na prática, a IANA mantém blocos globais de endereços IP e ASNs e distribui eles para entidades regionais.
Apesar da IANA estar no topo da hierarquia global da Internet, ela não realiza a distribuição direta de recursos como endereços IP ou ASNs para empresas, provedores ou usuários finais. Em vez disso, existe uma camada intermediária essencial chamada RIR (Regional Internet Registry). Os RIRs são organizações responsáveis por gerenciar e distribuir recursos da Internet dentro de regiões específicas do mundo.
Esses recursos incluem os endereços IPv4, endereços IPv6 e números de Sistemas Autônomos (ASNs). Cada RIR recebe blocos desses recursos diretamente da IANA e passa a administrá-los regionalmente.
Por que a distribuição é assim?
Nos primeiros anos da "Internet", ela era limitada a universidades, centros de pesquisa e instituições governamentais, mas ainda não era chamada de Internet. Naquele cenário, a distribuição de recursos como endereços IP ocorria de forma centralizada, sendo realizada principalmente por Jon Postel, que mantinha o controle desses identificadores de forma praticamente manual.
Naquela época, a internet ainda estava em seus estágios iniciais de expansão, mas estava se tornando cada vez mais evidente que o crescimento futuro exigiria uma entidade central para gerenciar a atribuição de números IP, números de sistemas autônomos (ASNs) e nomes de domínio. Embora a internet não tivesse o tamanho e a complexidade atual, os problemas de organização e padronização já eram evidentes. As redes interconectadas começavam a crescer além dos ambientes acadêmicos e militares, e era necessário garantir que houvesse uma estrutura para evitar conflitos na alocação desses recursos.
A IANA foi então criada como parte dessa necessidade de centralização e coordenação. Naquela época, o gerenciamento ainda era simples em comparação com os dias de hoje. Quando a Internet cresceu e se tornou global, a criação dos RIRs foi necessária, já que a IANA não conseguiria gerenciar tudo sozinha.
Essas entidades (RIRs) recebem grandes blocos de endereços IP e ASN da IANA e passam a ser responsáveis por sua distribuição em regiões específicas do planeta. Cada RIR atende a uma determinada área geográfica, permitindo uma gestão mais próxima da realidade e das necessidades locais. Em algumas regiões, essa estrutura é ainda mais refinada com a presença dos National Internet Registries (NIRs).
Esses NIRs atuam em nível nacional, recebendo blocos de endereços dos RIRs e redistribuindo-os internamente dentro de seus países. Dessa forma, os NIRs funcionam como uma camada intermediária entre o RIR e as organizações finais, como provedores de Internet, empresas e instituições.
Esse modelo é especialmente adotado em países com alta demanda por endereços IP e grande volume de operações. Um exemplo clássico é o Japan Network Information Center (JPNIC), no Japão, que atua como NIR para gerenciar os recursos dentro do país. No Brasil, esse papel é desempenhado pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), que organiza e distribui os recursos de numeração de forma alinhada às necessidades nacionais.
Como obter um ASN/IP
Para obter um endereço IP e um ASN no Brasil, você deve realizar a solicitação diretamente pelo Registro.br, que é o departamento do NIC.br responsável por essa gestão. O processo é um pouco complexo, você precisa comprovar tecnicamente a necessidade desses recursos, como demonstrar que a sua rede é multihomed (possui conexão com pelo menos dois provedores de trânsito diferentes) e apresentar um plano de uso da rede que justifique o tamanho do bloco solicitado.
Toda a documentação e os formulários de pedido são preenchidos no próprio painel do sistema deles. Você pode ver o passo a passo completo na página Como Solicitar Recursos de Numeração no site do Registro.br.
Sobre o custo, a cobrança é anual. O NIC.br cobra uma taxa de manutenção anual (além de um custo inicial de ativação cobrado no primeiro ano), e o valor varia dependendo da categoria da sua organização e do tamanho do bloco IP alocado. Para a alocação de blocos iniciais mais comuns (como um /48 até /35 de IPv6 ou um /24 de IPv4), a taxa de manutenção anual costuma partir de valores entre R$ 3.300,00 e R$ 4.400,00 por ano. Se for um ASN, o valor é de 5.500,00 reais.
Você pode conferir os valores na página oficial do registro.br, na parte de Custos de Numeração do Registro.br.
O que fazer após conseguir um ASN?
Depois que você obtém um ASN e um bloco IP próprio (IPv4, IPv6 ou ambos), existem basicamente duas formas de fazer seu ASN se comunicar com o restante da Internet e anunciar seus prefixos. Ambas envolvem o uso do protocolo BGP, que é o protocolo de roteamento utilizado para troca de informações entre sistemas autônomos.
A primeira forma (e a mais comum) é fazer peering com um provedor de trânsito IP, também chamado de upstream provider. Você contrata um ou mais links com operadoras que já possuem conectividade global, e firma uma sessão BGP com elas. Nessa sessão, você anuncia seus blocos IP (seus prefixos) e, em troca, recebe rotas do mundo inteiro.
Esse provedor então propaga seus anúncios para o restante da Internet. É dessa forma que seu ASN se torna visível e acessível publicamente. Você pode fazer isso com apenas um provedor, mas muitos ASNs optam por contratar dois ou mais para garantir redundância e mais controle sobre o tráfego, isso é o chamado multihoming.
A segunda forma, que pode ser feita em paralelo ou de forma complementar, é através de peering direto com outros ASNs em um ponto de troca de tráfego, como o IX.br. Nesse modelo, você estabelece sessões BGP com vários outros participantes do IX (peers) e troca tráfego diretamente com eles, sem passar por um provedor intermediário.
Isso pode reduzir latência e custos, além de dar mais controle sobre a rota do seu tráfego. No entanto, esses peerings diretos normalmente envolvem apenas troca de tráfego com redes específicas, você ainda precisa de um provedor de trânsito para alcançar o restante da Internet.
Sobre o provedor de trânsito
O provedor de trânsito IP, que é uma operadora com presença na Internet global, estabelece uma conexão física com a sua estrutura, normalmente puxando um link dedicado até o seu data center, escritório ou POP (ponto de presença). Esse link pode ser entregue via fibra óptica, rádio digital ponto a ponto ou até através de interconexões em datacenters compartilhados, dependendo da infraestrutura da sua região e do acordo com o provedor.
Quando o link está instalado, vocês configuram uma sessão BGP entre o seu roteador e o roteador do provedor. É nessa sessão que você anuncia seus prefixos (os blocos IP que você tem alocados) e recebe, do outro lado, as rotas da Internet inteira. Com isso, o provedor passa a ser responsável por "publicar" seus anúncios para os outros ASs do mundo, fazendo com que a sua rede se torne acessível globalmente.
A Claro, por exemplo, vende um acesso dedicado sem compartilhamento de banda, disponível em velocidades de 50 Mb até 10 Gb, entregue por fibra até o CPE que fica dentro da empresa contratante.
Se o escritório está dentro de um prédio corporativo atendido pelo backbone de fibra da operadora, eles apenas passam uma nova fibra até a sala de TI e entregam o serviço num SFP ou numa porta elétrico‑Gigabit. Quando o escritório não é atendido diretamente, o provedor encomenda um par de fibras alugadas de uma concessionária de rede neutra ou monta um circuito Ethernet sobre MPLS. A Equinix descreve um processo similar para cross‑connects internos, basicamente um patch‑cord entre dois racks, modelo que as operadoras replicam na prática entre o backbone delas e o CPE do contratante.